sábado, 2 de julho de 2016

A PEREGRINAÇÃO DO RAPAZ SEM COR

Tsukuru Takazi é um engenheiro que reconstrói estações de comboio em Tóquio, onde vive, e tem cerca de 36 anos quando conhece Sara, uma agente de viagens um pouco mais velha. Solteiro e trabalhador, leva uma vida rotineira, monótona e solitária, ao contrário do que acontecia na sua adolescência, quando fazia parte integrante de um grupo de cinco colegas de liceu, amigos inseparáveis em quem confiava plenamente. Nessa época, o seu único aborrecimento era que todos os seus amigos tinham uma cor no apelido e o dele só significava  "o que faz coisas". Já na altura, um dos seus passatempos favoritos era visitar as estações de comboio de Nagoia, onde ele e os amigos residiam, e observar as carruagens a chegar e a partir, "vomitando hordas de pessoas e engolindo a toda a mecha nova fornada". Por isso, foi sem hesitação que se esforçou para conseguir notas para entrar em engenharia na faculdade de  Tóquio, enquanto todos os seus amigos permaneceram em Nagoia.

Durante o primeiro ano da faculdade ele regressa à sua cidade natal sempre que lhe é possível, a amizade com o seu grupo não parece ser abalada. Contudo, durante o segundo ano, nota que os seus amigos não respondem às suas chamadas telefónicas até que um dia Ao lhe diz explicitamente para ele não voltar a ligar a nenhum deles. Quando pretende uma justificação para tal, o outro apenas o incentiva a pensar no assunto, que depressa vai descobrir - mas Tsukuru não faz a menor ideia ao que Ao se refere. O pacato e tímido estudante sofre então um profundo desgosto com o abandono dos amigos e só pensa em morrer. Durante os seis meses seguintes perde peso e faz tudo automaticamente. "Foi como se me tivessem atirado ao mar, do alto de um navio, em plena noite", explicará mais tarde.

À medida que o tempo vai passando, "a dor por ter sido ostensivamente rejeitado persistia, com a diferença que agora aumentava e diminuía, como a maré. Havia alturas em que lhe chegava aos pés, e outras em que se retirava, afastando-se para longe, ao ponto de mal dar por ela." Assim, é sem espanto que o desaparecimento de Haida, um amigo já da faculdade, não lhe provoque um desgosto idêntico: Tsukuru parece fadado para ser abandonado. E chega à errónea conclusão que "no fundo, não tenho nada a oferecer às outras pessoas. Pensando bem, nem sequer tenho nada a oferecer a mim próprio."

É Sara que o convence a procurar os antigos companheiros e esclarecer a situação uma vez por todas: "Quero saber quem são, afinal, esses indivíduos que continuas a carregar às costas." E 16 anos depois ele parte nessa demanda...

Murakami no seu melhor, num estilo mais intimista e menos fantasioso, em que o leitor se identifica imediatamente com a personagem. Afinal de contas, quem é que nunca sofreu com uma rejeição inexplicável e injusta?

BOM FIM DE SEMANA!
(com ou sem férias à vista...)

24 comentários:

  1. Já li. Não foi dos que gostei mais, mas gostei muito também.
    Bom FDS. Beijocas
    PS: Então quando envia o postal, Teté?

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Para me redimir do indesculpável atraso, enviei os postalinhos via mail assim que vi esta mensagem, CARLOS. Sorry,onde again!

      Beijocas

      Eliminar
  2. Não li. Mas costumo gostar de Murakami. :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Somos duas, LUISA. Ainda não li um livro dele que tenha desgostado! :)

      Eliminar
  3. Bom escritor mas um pouco deprimente. Nem sempre gosto de me identificar com as personagens. Prefiro que elas me “ensinem” algo de novo, que me incentivem a sair da zona de conforto, que me façam ver a “grande vida” que há para viver. : )
    Acabei “A decisão final do Major Pettigrew” – more upbeat! Apetece-me lê-lo de novo.


    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Esse do major quero ver se o apanho por aí para espreitar, CATARINA! :)

      Nem sempre me identifico com as personagens, então em policiais quase nunca. Nem me parece que seja necessário, para gostarmos de ler um livro. Mas, neste caso, pelo menos eu identifiquei-me com Tsukuru - já tive amigos em quem confiava que um dia desapareceram do mapa sem dizer "água vai". Quer dizer, não todos em simultâneo, como neste caso. E aprende-se sempre, nomeadamente ficamos a saber quem é um verdadeiro amigo do peito e quem não é... :P

      Eliminar
  4. Bom fim de semana Teté!

    Um beijinho

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Beijocas e boa semana, ADÉLIA! :

      Eliminar
  5. Mas como é que esta gente arranja tanto tempo para tantas leituras?...
    Não tenho nem tempo para me coçar
    e o que sobra é para vos comentar!

    :))

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É uma questão de prioridades, ROGÉRIO! Também raramente vejo as notícias e não perco tempo com futeboladas, por exemplo... Logo, ando menos informada, mas isso não faz de mim infeliz. Antes pelo contrário! :)

      Eliminar
    2. Quer é poder!! : )
      Podemos ouvir livros no carro no formato áudio enquanto se vai para o trabalho, por exemplo, abdicando das estações de rádio; ouve-se em casa enquanto se executam outras tarefas; lê-se na cama ou no sofá durante os períodos de descanso; nas salas de espera…. Etc etc… : ))

      Eliminar
    3. Completamente de acordo, CATARINA! Embora não tenha a certeza se o mercado português de livros audios é muito diversificado, já existem alguns: mas caros para xuxu, acabei de confirmar! :P

      Mas dá sempre hipótese de reservar 15/30 minutos por dia para leitura, por exemplo antes de dormir! O que se o livro for desinteressante até pode funcionar como soporífero... :)

      Eliminar
  6. É um autor muito conhecido de quem li apenas "Kafka à beira mar". Não fiquei fã.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Tenho uma amiga minha que também detestou o Kafka, BEA, embora tenha gostado de outros do autor. Eu confesso que gostei, embora sendo um livro mais fantástico do que este, que tem um estilo de quase diário... :)

      Eliminar
  7. Sim, senhora! Ler Murakami e ter uma cervejola gelada ao lado, para empurrar, nunca se fica enfartada!

    Eu ainda ando às voltas com o Postal de Detroit, vê lá!! Mas já ri bastante...e estou quase no final!

    Beijocas e boas leituras em frescas esplanadas, Teté! :)

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Bom, comecei a ler o livro no fim de semana anterior, lá no tal hotel com pouca luz (aqui ainda era dia), aproveitei para beber uma cervejita no bar, JANITA. E achei que ficava bem na foto... Ah, e sim, o maridão estava a participar numa corrida em Peniche, estava frio demais para ir dar apoio... :)))

      Esse do postal também me parece boa onda, mas entretanto a minha fila de espera já vai longa, esse terá de esperar...

      Beijocas

      Eliminar
  8. Fiquei curiosa ...
    contas me o final por mensagem privada?
    Não aguento de curiosidade LOL

    Blog LopesCa | Facebook

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Quando ganha o Nobel?

      Eliminar
    2. Vai tirando o cavalinho da chuva, que não conto finais, não, LOPESCA! :)

      Eliminar
    3. Já devia era ter ganho, EMATEJOCA, mas a academia sueca prefere autores menos vendáveis e praticamente desconhecidos, como tem acontecido bastas vezes nos últimos anos... :P

      Eliminar
  9. Há alturas em que não consigo ler, tenho tempo mas não tenho concentração :((, estou numa dessas fases e tenho que optar por livros de contos.
    Beijinhos

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. É uma alternativa, quando não se tem muito tempo ou cabeça para grandes leituras, PAPOILA. ;)

      Beijinhos

      Eliminar
  10. Fiquei curiosa... vou tentar arranjar o livro...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Fazes bem, que vale a pena, REDONDA. Mas sou suspeita, que adoro Murakami... :)

      Eliminar

Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)