segunda-feira, 24 de setembro de 2012

AVENTURAS DE JOÃO SEM MEDO

A Tons de Azul sugeriu a leitura deste livro em tempos, mas não foi a única a aconselhá-la. Encontrá-lo à venda não foi tarefa fácil, acabou por surgir num escaparate nesta edição de bolso, de meras 218 páginas de letra gorda - fora uma nota final da 2ª edição (de 1973), com pouco mais de uma dezena de páginas.

O subtítulo desta obra de José Gomes Ferreira é sobejamente elucidativo: panfleto mágico em forma de romance. Tal como o próprio autor explica na referida nota final, a primeira versão desta narrativa foi concebida e publicada em 1933, "esfacelada em episódios n'O Senhor Doutor", um jornal da época, e só cerca de 30 anos depois tomaria a forma de livro, após algum trabalho de remodelação a que acrescentou uma conclusão - o que não fizera inicialmente!

João Sem Medo vivia em Chora-Que-Logo-Bebes, "uma exígua aldeia aninhada perto do Muro, construído em redor da Floresta Branca", mas, ao contrário dos seus conterrâneos, recusava-se a passar os seus dias a choramingar e a lastimar-se. Assim, um dia avisa a mãe que irá saltar o Muro, ao que a pobre viúva responde com a choraminguice habitual e súplicas prolongadas. No entanto, determinado, João Sem Medo parte à aventura por esse mundo desconhecido...

Logo de início depara-se com Dois Caminhos, onde uma estranha fada (melhor dizendo, um marmanjão mascarado de fada, pois trata-se do contínuo da Repartição da 3ª Mágica, o único que estava disponível no momento, quando telefonaram a pedir uma representante para o local), lhe indica que o asfaltado o conduzirá à felicidade e o de pedregulhos à infelicidade. O nosso herói opta pelo asfaltado, até ao momento em que descobre que a felicidade tem um preço: consentir que lhe cortem a cabeça. "para não pensar, não ter opinião nem criar piolhos ou ideias perigosas" e "trazer nos pés e nas mãos correntes de ouro." João recusa cortar a cabeça e envereda então pelo outro caminho, jurando contudo não ser infeliz, "PORQUE NÃO QUERO".  Põe-se então em marcha enfrentando perigos vários e estranhas personagens, entre gigantes, fadas, bruxas e animais falantes, em mundos às avessas. Será que algum dia regressará a Chora-Que-Logo-Bebes para reencontrar a sua triste mãe?

Quase 5 décadas volvidas sobre a publicação em livro (e 8 sobre o seu formato folhetinesco) ainda é uma leitura muito agradável que, à primeira vista, pode ser confundida com uma história infantil. Não é! Ao evocar a criança que ainda existe dentro de quase todos nós, vai-nos dando conta simbolicamente de um outro tempo de "caça às bruxas", em que as pessoas eram dominadas pelo medo, evitando até expressar as suas opiniões livremente...

Citações:

"- Na verdade - admitiu a formiga - a maioria dos animais tornou-se muda. Que queres? Os homens diziam tantos disparates que, certo dia, os bichos, para não se confundirem com vocês, votaram a greve geral, a greve do silêncio que ainda hoje dura... Greve apenas furada pelos papagaios e outras aves sem categoria..." 

"[...] não devemos confundir igualdade com identidade... baralhada muito comum, aliás... Do ponto de vista exterior vocês serão sempre desiguais."

"- Sabes quem são estes homens? [...]
- Escravos que vivem no aviltamento de um trabalho sem sentido para alimentar a preguiça dos habitantes dos ninhos de penas. Enquanto os semideuses comem, bebem e passam os dias enfeitados de flores a cantar louvores ao sol e à lua, os outros na escuridão mourejam como máquinas de pavor negro.
- E no entanto são todos feitos da mesma carne humana, não?"

19 comentários:

  1. Pois eu sorri, ao ler a tua belíssima sinopse, sinal de que terei que ler este João.:)
    beijocas

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    1. Vale a pena, NINA, e lê-se num instante! :)

      Beijocas!

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  2. Foi livro de leitura obrigatória nas escolas, no 7º ou 8º anos depois do 25 de Abril e quando vivíamos cheios/as de ilusões!

    Abraço

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    1. Acredito, ROSA, mas quando se tornou leitura obrigatória, já tinha ultrapassado essa fase liceal, daí só o ter lido agora! É, já houve um tempo em que estávamos cheios de ilusões... :)

      Abraço

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  3. O outro ontem teve ainda a lata de dizer que estamos num país de muitas cigarras e poucas formigas, Tété.

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    1. Vi, VIC! Daí ter aproveitado a citação da formiga. Nem te digo o que elas acabam por fazer às cigarras... :)))

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  4. Gostei bastante desta tua opinião.... é de facto um livrinho a ter em conta e imprescindivel, em qualquer estante.
    Mas a edição é relativamente fácil de encontrar, actualmente encontra-se na colecção BIIS da Leya, a um preço bastante convidativo. Até breve, Boas Leituras

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    1. Bom, NUNO, quando a Tons de Azul aconselhou a leitura, não o encontrei, mas já foi em 2010. Agora é possível que já esteja reeditado, mas quando encontrei o livro de bolso, aproveitei logo, dada essa experiência anterior... :)))

      Boas leituras!

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  5. Não li, mas depois de ler este post, fiquei alerta e apontei na lista de compras.

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    1. Não sei se fará muito o seu género, CARLOS, mas como se lê num instante, também não perde muito... :)

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  6. De José Gomes Ferreira só li poesia, que muito me agrada.

    Uma serena noite, linda

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    1. Praticamente não leio poesia, SÃO, que não faz muito o meu género. Leio uma ou outra em blogues ou no facebook, mas livros de poesia, não. Mas lembro-me de ter lido um poema dele, ainda numa fase juvenil, que me impressionou bastante. Dizia que os pássaros quando morrem caem no céu... :)

      Bons sonhos para ti!

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  7. Um livro a considerar, então. Vou ver se existe aqui na biblioteca.

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  8. A biblioteca tem alguns livros deste autor mas não este.

    Gaveta de nuvens
    Poesia
    A memória das palavras
    O irreal quotidiano
    Poeta militante: viagem do século vinte em mim

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    1. Foi o primeiro livro que li do autor, CATARINA, até porque ele escreveu muita poesia, que não leio. Portanto, em relação aos outros, não faço a menor ideia do que tratam... ;)

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  9. podes arranjar-me as coordenadas da terra do João?

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    1. No livro não explica, VÍCIO, o escritor ainda não devia conhecer o GPS... :)))

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  10. Fiquei contente em saber que já o leste e que gostaste. Tem uma história muito boa mesmo! :)
    Beijinhos

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    1. Eu é que tenho a agradecer, TONS DE AZUL, mais uma das tuas boas dicas de leitura... :)

      Beijocas!

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)