terça-feira, 18 de setembro de 2012

O PLANALTO E A ESTEPE

"Músicas diferentes de gotas batendo no zinco, quem pode esquecer? Bebé eu era e estendia as mãos para o tecto, talvez para agarrar a música da chuva. Contaram mais tarde os meus pais, sorrindo. No entanto, essas lições da primeira infância não tiveram importância nenhuma para o resto da estória, pois sempre fui péssimo em música, duro de ouvido. Acabei mesmo meio surdo, mas isso foi mais tarde, por causa dos tiros e rebentamentos." O esclarecimento nas páginas iniciais provém de Júlio Pereira, o protagonista, que assim nos alerta para a história de vida que se segue. Que começa na sua tenra infância em Huíla, Sul de Angola, as primeiras brincadeiras, a escola e os amigos pretos, que muitos pareciam não compreender num rapaz branco. Após os brilhantes exames do fim do liceu, o pai obteve uma bolsa de estudos para ele poder continuar. "Não havia universidade em Angola, os colonialistas nunca tinham querido, para manterem a terra no atraso, como me tinha explicado o professor de Filosofia. Devia ir para Portugal." A ideia de partir arrepiava-o: "Deixar tudo? Não era muito, talvez, mas era tudo. Sonhos, amigos, família, terra, bois, cheiros, mato, rochedos, sabores, verde."  

Começa então a grande viagem do jovem estudante, rumo à universidade de Coimbra, onde se sente infeliz, embora juntamente com outros companheiros africanos abra os olhos para a política colonialista dos anos 60. E, nos primeiros meses de 1961, estoiram as revoltas em Angola. Sonha com lutas de libertação e um dia, parte para Marrocos, com alguns desses camaradas. A cor da pele decide o seu destino, em Rabat: os escuros receberão treino militar, os claros irão estudar em países amigos na Europa. Desiludido, apenas lhe cabe aceitar e Moscovo é a nova paragem, onde deve aprender a língua e seguir estudos de Economia. É sobre o luar moscovita que conhece Sarangerel - uma jovem estudante mongol, filha de um alto funcionário  da República Democrática e Popular da Mongólia - e "nada foi como antes". Será que o amor consegue ultrapassar todas as fronteiras?

Talvez os livros sejam como o amor: há um instante certo para o(s) encontrar, possivelmente noutros momentos não nos diriam tanto! Só assim se explica a leitura completamente apaixonada deste romance de Pepetela - mesmo que seja fã empedernida do escritor, desde que li o primeiro Bunda...

Citações:

"Como constataria mais tarde na minha penosa existência, os fiéis deixam de o ser ao estudarem marxismo e comunismo e enquanto lhes convinha. Mas, tempos depois, desiludidos com a vida, abandonavam o marxismo. E regressavam às religiões. Acontecia por vezes não ser a religião de origem, mas era de qualquer modo uma religião. Fraquezas, medos, interesses, sei lá.
Não é fácil viver sem Deus."

"Há gente muito boa a inventar desculpas, não fazem outra coisa, é um emprego com largo futuro no mundo da política."

"- Basta-nos onze meses por ano de socialismo e de países amigos - respondi. - Por um mês de férias preferimos espairecer nas molezas do capitalismo. Amigos amigos, férias à parte!"


24 comentários:

  1. Nunca li nada deste autor, mas a fotografia do livro é tão bonita!!!

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    1. É, EMATEJOCA, a capa é giríssima! Mas também adorei o conteúdo... :)

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  2. Dele só li "Predadores" e gostei muito!
    Vou ver se leio este, parece-me interessante...

    Abraço

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    1. Pelo menos a mim, apanhou-me no momento certo para o ler, ROSA... :)

      Abraço

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  3. Nunca li nada deste autor, mas já me falaram maravilhas dele. Tenho curiosidade. Sabe estou a acabar de ler "O inventor de lágrimas". de Luis Carmelo. Falaram-me tanto dele. E tenho que confessar que não é nada daquilo que eu imaginava. Não posso dizer que não gosto, mas não me entusiasmou.
    Um abraço

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    1. É, ELVIRA, há uma diferença entre um bom livro e um livro entusiasmante... Agora claro que também depende do leitor! :)

      Não conheço esse livro, nem o escritor! Mas as opiniões nem sempre são coincidentes, não é? ;)

      Abraço

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  4. Cá está mais um autor que nunca li :(

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    1. Até ao momento, foi o que mais gostei dele, LUISA! Se bem que os do agente Jaime Bunda me tenham feito rir muito mais... :)

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    1. Então somos dois, CARLOS! :)))

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  6. Tb nunca li nada deste escritor.

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    1. Por acaso este é o sexto livro que leio dele, CATARINA, e independentemente de gostar de todos (os do agente Jaime Bunda são uma comédia/sátira hilariante), este cativou-me mais... :)

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  7. Parece bem interessante.
    Também não conheço o autor. Quem sabe? (mas já há tantos que gostaria de ler! Perdi a minha listagem que fiz com a tua ajuda e não só:(( )
    beijocas

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    1. Quanto à listagem, não te preocupes, NINA! Ali no canto inferior direito estão todos os links para os posts que escrevi sobre livros nos últimos dois anos... :)))

      O escritor é angolano e na feira do livro desde ano cravei-lhe um autógrafo (neste livro) e ainda lhe pespeguei duas beijocas! (escritor também sofre com as fãs...) :D

      Beijocas!

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  8. Nunca li nada dele, que me lembre.

    Mas agora também não poderá ser...

    Beijinhos

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    1. Certamente que quando escrevo sobre os livros que li, não é para impor a minha opinião, SÃO! Aliás, é apenas disso que se trata - uma mera opinião! E cada um terá as suas prioridades (e gostos) de leitura... :)))

      Beijocas!

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  9. Amei, amei, este livro! Na altura, teve um significado muito especial para mim. E gosto muito da linguagem do Pepetela.
    Bjs

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    1. Pelos vistos já somos três, TERESA, que o Carlos também gostou! E sim, também gosto da linguagem Pepetela... :D

      Beijocas!

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  10. Também gostei do livro. Deixo aqui o link com a sugestão que fiz da obra:
    http://sugestaodeleitura.blogspot.pt/search/label/Pepetela

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  11. Li o que escreveste, TIAGO, mas infelizmente não consigo comentar no teu blogue, à conta daquela irritante verificação de letras. Não achas boa ideia tirar aquilo que só atrapalha? Podes fazer moderação de comentários, que simplifica para todos... :)

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    1. Obrigado pela sugestão. Já alterei, não sabia que com moderação de comentários a verificação de letras desaparecia.

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    2. A moderação de comentários faz as mesmas vezes da verificação de palavras, TIAGO, mas para a tirares tens de ir às "Definições" - "Mensagens e Comentários" e nos "Comentários" alterares o item "Mostrar confirmação de palavras" para "Não". Só assim é que desaparecem... :)

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  12. Um dos livros do autor que quero muito ler! Ai, que me dói a alma sempre que começo a pensar que são tantos os que quero ler... ;)

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    1. Dói a ti e a todos nós que queremos pôr a leitura em dia... sem nunca conseguir, TONS DE AZUL! :)

      Este até se lê rápido, que são apenas umas 190 páginas ou coisa... :D

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)