quarta-feira, 23 de abril de 2014

NUM PAÍS LIVRE

V. S. Naipaul - prémio Nobel da Literatura 2001 - apresenta-nos aqui um prólogo, um epílogo, dois pequenos contos ("Um Entre Muitos" e "Digam-me Quem Devo Matar") e o livro que lhe dá o título: "Num País Livre". Como o próprio indica no final das 261 páginas, todas as histórias foram escritas entre Agosto de 1960 e Outubro de 1970 e decorrem em países supostamente livres, na época. Mas não exatamente para todos, como Naipaul faz questão de sublinhar, por vezes até com uma certa ironia.

Em "Num País Livre", a ação decorre num país africano recentemente reconhecido como independente, onde duas facções (e tribos) distintas lutam pelo poder. Até que a facção republicana, apoiada pelos países ditos civilizados, vence o confronto - pois tem o maior exército - e anda à procura do rei inimigo. É neste contexto que Bobby, um inglês funcionário administrativo do Governo Central e há muito residente no país tem de regressar à sua área de residência no Sul, em pleno território do rei, atravessando uma ampla região desde a capital, onde se encontrava a participar num seminário. Embora contrariado, acede a levar de boleia à fútil mulher de um conterrâneo radialista que mal conhece, mas sobre quem correm boatos de ser uma adúltera reincidente - por aí não há problema, porque ele próprio tem outra orientação sexual. Ambos brancos e very british, parecem não se dar conta do perigo que é atravessar aquela região africana praticamente ainda em guerra, pois de alguma forma ainda se sentem colonialistas e superiores aos bandos de negros que vão encontrando pelo caminho...

Muito interessante! 

Citações:
"Uma vez, quando trouxe o seu filho para nos ver, disse-nos: - O meu filho até agora nunca mentiu. - E eu pergunto ao rapaz:  - É verdade? - Ele responde: - Não - e Stephen desata a rir e diz: - Meu Deus, que má influência a vossa! O rapaz acaba de dizer a sua primeira mentira."

"Mas não, como todas as pessoas pobres, elas queriam ser as únicas a subir na vida. São os pobres que querem sempre obrigar os pobres a ficar por baixo."

"Lembro-me de como treinávamos os homens para irem para Salónica, para a Índia e outros lugares do género - disse o coronel. - Às vezes tínhamos de os atar aos cavalos. Ah-wa-wa! Ouvíamos eles a chorar do outro lado do campo. Alguns deles arranjavam, de cavalgar, feridas, esfoladelas do tamanho da palma da mão. Mas acabávamos por fazer deles verdadeiros soldados a cavalo."   

post-scriptum - o marcador da foto não vinha com o livro, foi-me oferecido por uma amiga - trata-se de um elástico negro, ornamentado com diversos botões pretos, cinzentos e dourados. Escusado dizer que adorei o miminho, que achei giríssimo, daí incluí-lo na foto!

20 comentários:

  1. Mais uma sugestão...que agradeço.

    O marcador é giro, rrss

    Quanto às cidades, claro que podemos gostar de todas e preferir uma não implica exclusividade. Da que que não gostei nada , nem sequer da região, foi Bilbao.

    Bons sonhos e beijinhos

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    1. Também não conheço Bilbao e a região, SÃO! Mas sabes que essas más impressões às vezes são devidas a factores passageiros. Por exemplo, a primeira vez que estive em Tomar, fiquei com uma péssima impressão da cidade: estava toda em obras de canalizações, ainda por cima estava a chover, de modo que só recordo um grande lamaçal... Dessa visita! :)

      Beijinhos e bons sonhos para ti!

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  2. Não conheço,mas parece realmente interessante!
    Quanto ao marcador também eu gosto imenso, pois tenho um que me foi oferecido por uma amiga virtual.

    beijinho e uma flor

    P.S. Teté quanto ao que escrevo lá no meu cantinho, é simplesmente uma pequena parte do que escrevo nos meus cadernos, escrevo o que sinto que sinto, falo de mim e não é fácil tentar, muito menos esquecer o passado, apenas aprendo a viver com ele.

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    1. Claro que nunca esquecemos o passado, FLOR DE JASMIM! E desabafar, para um caderninho ou para o blogue também faz bem. Mas por mim falo: tento esquecer o que houve de pior - todos temos desgostos na vida - e valorizar o melhor! E por outro lado, concentrar-me mais o presente, que agora é o que interessa...

      Uma grande beijoca!

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  3. Um livro a considerar.
    Bjos

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    1. De vez em quando é bom ler um Nobel, CATARINA! Mesmo que a maior parte das vezes não concorde com a academia sueca - que parece ter horror a best-sellers... :)

      Beijocas

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  4. Fica a sugestão para uma próxima oportunidade
    Beijocas!

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    1. Diz bem, PEDRO, são sugestões que cada um segue ou não conforme tenha apetência... :)
      Beijocas

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  5. Um livro a ler, sem dúvida. Gostei bastante.
    Beijinhos

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    1. Também gostei, CARLOS! :)

      Beijocas

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  6. Este vai ficar para umas próximas núpcias, quando o apanhar na livraria mais perto. Gostei do que escreveste sobre o enredo, mas há uma palavra tua que me está cá a martelar, Teté!
    Para mim, 'bandos', é palavra que designa um conjunto de aves ou foragidos, no entanto empregaste-a para te referir a negros. Estranho!
    Meliantes, julgo que não seriam, já que se cruzavam com os ingleses snobs e não lhes faziam mal...:)
    Tenho mesmo de ler o que Naipaul escreveu acerca desse país africano, onde vigorava uma suposta liberdade.

    Não é apenas do Continente africano que existem "Países Livres", mas não para todos!

    Lembraste do filme "África Adeus"? Escrevi tudo isto- e não leves a mal - a pensar num hipotético " Europa Adeus" :(

    Beijocas, acompanhadas de pedido de desculpas, por tanto palavreado!

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    1. A palavra talvez não seja a mais adequada, JANITA, mas aqui encontram um negro a quem dão boleia, mais adiante outro amigo dele. Depois parte de um exército, mais tarde outra parte da tribo adversária. Ou seja, a desorganização no país é completa, ninguém sabe bem donde vem ou para onde vai. Fez-me lembrar "Os Putos" do Paulo de Carvalho, daí o uso da palavra. Que, repito, pode não ser a ais indicada... até porque se trata de um país em guerra e muitos desses homens estão armados!

      A outras histórias passam-se em Nova Iorque e em Londres, onde a liberdade não abrange os imigrantes, menos ainda os indianos, chineses, etc...

      Não, não sei de que filme estás a falar! Mas estás sempre à vontade para escrever o que te apetecer... :)

      Beijocas

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    2. Teté, vê só que coincidência! Como referes não conhecer o filme "África Adeus", fui tentar pesquisar algo sobre o mesmo, que te pudesse fornecer alguma 'pista'! Eis, senão, quando me deparo com um post da 'nossa' Rosa dos Ventos, justamente a falar sobre o filme.
      Ouro sobre azul!!...:)
      Aqui te deixo o link da publicação. Acho que a Rosa não se vai importar.

      http://rosadosventos1.blogspot.pt/2010/09/africa-adeus_4285.html

      Um beijo!:)

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    3. Não tive tempo de ver o documentário, JANITA, mas o blogue não e da "nossa" Rosa, embora tenha o mesmo nome. Assim que tiver um tempinho vou tentar ver, se não for demasiado violento. A propósito, não referi que o estranho casal do livro tenha passado incólume por toda aquela gente...

      Obrigada pelo link e beijocas!

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  7. Parece interessante, de facto.

    O marcador é bem original!

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    1. Também achei original, LUISA! :)

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  8. Os ingleses sempre com aquele ferrete de altivez e de sobranceria. Horrível!! Mas únicos!

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    1. Verdade, GRAÇA, snobeira nunca lhes faltou. Mas por vezes até tem a sua piada... :)

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Sorri! Estás a ser filmad@ e lid@ atentamente... :)